Durante boa parte da minha vida trabalhei como professor lecionando para a
adolescência e juventude. Nesse importante mister constatei que grande número
de meus alunos, quase sempre meninos ou meninas, normalmente de boa família, mesmo os pertencentes ao ensino público, esqueciam-se frequentemente dos
melhores propósitos educacionais ao transformarem-se em reféns de uma tecnologia massificada em detrimento de um conceito de vida mais elevado, mais criativo e, por isso mesmo, muito mais prazeroso.
As
redes sociais, não obstante, cumpram o papel de aproximar pessoas,
paradoxalmente afastam-nas do estudo, do conhecimento e da cultura. Isso me remete à minha juventude (quando ainda se liam livros) quando veio-me às mãos a obra de George Orwel, 1984. Corria então o final dos anos 60 e jamais pude imaginar que menos de meio século depois aquilo que o livro mostrava fosse tornar-se realidade. A novilingua, o duplipensar, o Big-brother
e o pérfido dístico do partido que diz: guerra é paz; liberdade é
escravidão; ignorância é força. Evidentemente Orwell nos assinala com
outros fatores alienantes; na sua visão futurística! Entretanto todos, sem exceção, visam o
embrutecimento gradativo da massa.
E
essa observação se estende genericamente, mostrando uma tendência global na
qual o jovem se isenta da autoestima que o dignifica e se entrega a situações
estranhas à sua natureza, pouco ou às vezes nada recomendáveis, principalmente
no que diz respeito a violência, drogas e sexo. Isso vai contra seu papel como célula
da sociedade, em sua escalada progressiva tirando-o da vanguarda da importante missão
planetária que lhe é imputada no limiar desse século XXI.
Na
verdade, é impressionante a falta valores de foro íntimo, domésticos ou
essenciais, tais como educação, cultura, solidariedade, família, participação
comunitária, civilidade, e outros que seriam convenientes serem ministrados sob
as paredes do lar contribuindo com a construção de um status de vida mais
humanitário, contrariando o rumo que as coisas tomaram.Mas... infelizmente os lares também foram sugados pela globalização insana da mídia opressiva.
A
geração do porvir ainda não sente os sintomas da profunda ferida que se alastra
por todas as nações da Terra! Esta clama desesperada por providências drásticas
que possam, enfim, curá-la; mas em vez de lutarem por um planeta melhor, a
juventude distancia-se e fica gradativamente à margem do processo, longe da
formação psicológica e social desejável para o adolescente hodierno. Mas se
formos analisar melhor, não são eles os maiores culpados. Foi a geração
anterior que errou, a nossa, que não soube transmitir valores cabíveis para o
momento único pelo qual estamos passando.
Ora,
sabemos que o progresso humano se faz através de renovação de valores; o novo
tende a substituir o velho! Nesse ponto reside a importância da mocidade no
processo crítico e decisivo pelo qual passa a humanidade; e o processo termina
dando-nos uma grande preocupação, uma dor de cabeça enorme, visto que com a debacle cultural o jovem perde principalmente a sua memória ancestral; a cada
dia vai-se olvidando um pouquinho mais o contato com o passado, deixando de
auferir o precioso conhecimento dos filósofos, luminares, exemplos ou vultos de
outrora. Infelizmente isso gera um fato que, sem dúvida, nos sonega inúmeras
informações de relevância da nossa história. Essa ação vai pouco a pouco
solapando o edifício cultural humano e traz em seu bojo riscos iminentes de
desmoronamento social e moral.
Por
outro lado, assistimos com pesar o crudelíssimo aumento da violência, do
hedonismo, do egotismo, da falta de objetivo e do esvaziamento mental devido à
carência de interesses pelos assuntos que se reportam ao espírito. O corpo,
esse sim, vem assumindo o super papel de altar principal onde
se cultua a deusa vaidade com todos os rituais que ela exige; e haja academias,
salões de beleza, fisiculturismo, plásticas estéticas, lipoaspirações, silicones
espalhados pelo corpo... não que isso seja ruim, mas o exagero, por exemplo, provoca uma tendência a
substituir-se os objetivos mais sérios por situações mais fúteis que induzem a presunções e orgulhos cada vez
maiores.
Mas o que fazer? É preciso inventar algo que desperte interesse, que
prenda a atenção e altere esse quadro, com pressa, mas sem afobação, para não
cairmos novamente no absurdo de produzir uma comunidade descompromissada com
seu próprio futuro, seja individual, coletivo ou grupal.
E o
que se torna necessário para se começar uma mudança?
Não
é simples! É importante angariar muitas pessoas comprometidas querendo, de verdade, uma sociedade melhor;
que possuam paciência e prática suficiente para fornecer ensinamentos; e que mostrem
ao mundo uma vontade urgente de aprimorar o caráter individual do ser humano.
Outro
dia li uma frase que dizia: “Em lugar de
deixar um planeta melhor para nossos filhos, deveríamos nos preocupar em deixar
filhos melhores para o nosso planeta”. Sirvo-me dela como um aviso de
alerta importante para o futuro.
O
indivíduo deve lutar para atingir um estágio de quietude e paz interior, um
esclarecimento objetivo, uma orientação básica suficientemente ilustrativa do
verdadeiro papel que vamos representar na intrincada peça da vida. E finalmente
entender que é preciso esquecer de vez qualquer recompensa pessoal e dedicar-se
mais a melhorar os índices coletivos; essa é a condição “sine qua nom” para se atingir a meta proposta a um planeta
decente.
Fernando Gimeno
Academia Maçônica de Letras e Artes da Bahia
Cadeira n° 6
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